
Passou o dia estudando. Perceber que há quem construa castelos de sonhos forjados em auto-enganos deixou-a meio arredia. Focou-se nos livros, E sua ciência desenvolveu-se sem nenhuma reflexão. Não havia o que refletir. Castelos são feitos de tijolos com a sobreposição de peças à escolha do engenheiro. Com a lógica matemática que não percebe o elemento humano. Trabalha com ângulos que impedem a queda e esquecem que o tempo desgasta qualquer matéria. Preferia ter passado a tarde na beira do mar. Lá os peixes estão imersos, mas continuam a respirar. Não há ligações nessas horas. O telefone não toca. E passa a ser uma presença indesejável. Então ela passa a tarde estudando. Escutando a trilha sonora de um dos últimos filmes que assistiu no cinema. E pensa que seria muito agradável a explicação para composição de personagens que aprendeu na escola. Explicar tudo pelo falo, não, pela fala, (pequeno ato-falho) seria muito mais fácil. Igual a construir castelos de sonhos com cálculos matemáticos. Mas se lembrou que dormia nas aulas de geometria. E lembrou-se também da pergunta feita por uma taxista. Se teria sido melhor ignorar a mentira da época pra estar com aquilo que um dia sonhou. E percebeu a resposta no telefone mudo que silenciava a vontade gritante de disfazer o auto-engano de uma pessoa querida. Porque é melhor se perder de vez em quando dos sonhos do que ter um castelo inteiro arruinado anos depois. Castelos são do tempo dos cavaleiros, e eles parecem estar em falta no século XXI. - Postado por: Dri Ebecken às 23h04 [ ] [ envie esta mensagem ] Sobre o Outono Perdoe-me a demora, me perdi pelo caminho, claro que me perderia, tenho esse hábito... Eu vejo as placas, se lembra? e sempre pego a direção errada... Mas também, a senhorita foi recorrer logo à Maria Fumaça... quer trenzinho mais devagarzinho do que a velha tia braba? A mensagem chegou... com cinco dias de atraso. Te digo uma coisa sobre esse outono, ele tem sido tão criativo como a primavera. Um dia desses o céu tava tão azul e, de repente, boom!, floresceu lá em cima um lilás. Os sonhos são assim, não? Cada dia de uma cor? Pega logo a caixa de hidrocor! Quero desenhar contigo. Acredita que tem uma aranha cinza no meu papel? Tenho tido dias corridos, mas eles não me impedem de sentir a brisa fina da saudade. Do toque do passado. Temos sorte. Sorte por ter pelo o que lembrar, pelo o que gastar de tanto rever, na retina da memória. Quem sabe mesmo, uma sorte azarenta de ter pelo que sofrer. Eu me lembro do susto grande e daquela coisa imensa vindo pela estrada. Você só enxergando a risada. Os poetas são assim... Eles vêem o riso onde há pavor e a melancolia onde há amor. Deixa eu te contar, A gente pega as folhas que caem E usa de adubo. Juntamos tudo e fazemos semente. As folhas velhas, depois dessa idade, são coisas certas. ![]() (imagem retirada de: http://rabiscos-nonsenses.zip.net/) - Postado por: Dri Ebecken às 01h34 [ ] [ envie esta mensagem ] MARIA FUMAÇA EM ZIGUE-ZAGUE - SOS
Já reparou como esse céu de outono está azul de azulzinho? E como as manhãs se erguem com uma brisa que pede pra pele um carinho? Acontece contigo essa sensação esquisita de por vezes se achar em outro lugar que não o que você está? E quando a realidade descortina, e você está aonde está, não lá ou acolá, bate um atordoado nos sentidos como se a única capaz de dar sentido fosse a memória, mas para o seu bem a memória não pode se pronunciar? Já reparou que vira e mexe se toma um beliscão cretino que te quer prender no dito: sonhar é perigoso? Uma vez fui salva pelo seu afeto. O corpo estava pesado, a tristeza desnorteava as vontades, e tudo parecia um labirinto sem pé nem cabeça. E você me foi par, com alegria e leveza, e pegamos tantas estradas, vimos céus azulzinhos por tantas partes da geografia. Entendo bem sua queda por São João Del Rei... esse outono me explica. Lembra da gente enlouquecendo nas oficinas de roteiro? E da minha alegria beirando a infantilidade no trenzinho? E dos nossos pés nas pedras de Paraty entre ponche, cachaça e poesia? E da minha mania de subir alto e mais alto nos patamares do sul, você me acompanhar por todos os pedregulhos a cima, mas se enfurecer comigo porque eu queria tirar foto na beirinha topo dos precipícios? Dá para perceber que não é nostalgia, mas carência dos sentidos? Esse ratatá do sobreviver e cifrar acaba comigo, você sabe. Não me cabe quando me furtam a poesia. Hoje, o corpo leve tem um coração pesado, haverá dieta para isso? Duas crianças me fazem uma falta esgarçada, e não posso fazer nada... ter as mãos atadas me encarcera e me aloja como lombriga. Com o dinheiro que dá faço línguas... rota de viagem insana dentro da própria realidade. Preciso de estrada. Preciso de poesia. Preciso de par e descobertas da retina. Me parece de uma pobreza miserável escrever apenas com minhas duas mãos... mas tantas ceifas foram necessárias ao número x de amadurecimentos do tempo que chegou a me deixar arisca aos quem são. Ainda não inventaram remédio para isso... mas se um Professor Pardal aparecesse ficaria rico, eu seria rato de laboratório voluntário, o que acha? Já reparou que existem sistemas e sistemas de sabotagem e a gente aprende a reproduzi-los conosco? Então, stopa a fumaça do dia-a-dia um pouquinho, repara a janela, tem lá um céu de outono azul azulzinho. Sonhos são necessidades... o dano está na urgência irrequieta do palpável que esse viver ensina, o dano também está nas pedras que a gente guarda. Preciso ir à frente... tem um trem com destino ao afeto em par no próximo embarque, vem comigo? - Postado por: Cris Ebecken às 11h00 [ ] [ envie esta mensagem ] |